Ministério Nativo: a missão na Ilha do Bananal
Sentadas em um barranco, enquanto pescam, crianças observam a movimentação de “voadeiras” percorrendo as águas quentes do rio Araguaia. As pequenas embarcações transportam um grupo de nove voluntários que irão passar 365 dias na Ilha do Bananal, lar de indígenas da etnia carajá, no Tocantins.Os pequenos nativos soltam os caniços e correm na direção dos visitantes, recebendo-os com a saudação awire ("oi", no idioma local). A cena se repete toda vez que uma nova equipe do projeto Um Ano em Missão chega à região para auxiliar os ribeirinhos por meio de ações sociais e evangelísticas. A presença deles também tem ajudado a fortalecer o Ministério Nativo entre os carajás.
Existem várias aldeias espalhadas pela ilha. Localizada na divisa do Tocantins com os estados do Mato Grosso e Goiás, ela possui 20 mil quilômetros quadrados, o equivalente ao tamanho de Sergipe, e é rodeada pelos rios Araguaia e Javaé.
O acesso até lá é complicado. Partindo de Palmas, por exemplo, é necessário pegar uma balsa e atravessar um rio que leva até o Pará, e depois percorrer longos trechos de estradas de terra esburacadas até São Félix do Araguaia, no Mato Grosso. Ali existe um cais de onde partem embarcações que levam até o início da reserva, já no lado do Tocantins.
Na última etapa do percurso é possível ter um vislumbre do rico ecossistema que compõe a região que detém o título de maior ilha de água doce do mundo. A imensidão é tanta que, em terra, é impossível ver suas extremidades.
À medida que as embarcações se aproximam da ilha, o horizonte vai revelando a arquitetura rudimentar das vilas. São casas feitas de toras, barro e palha, chamadas de retôs. Foi a primeira vez que o voluntário Ítalo Franklin se deparou com uma cena do tipo.
Natural de Brasília, o estudante de Engenharia da Computação decidiu afastar-se da correria da capital e compartilhar seu conhecimento com os indígenas por meio de aulas de informática e tecnologia. Longe do lar, Franklin percebeu que algo além da paisagem mudaria em sua existência. “Descobri que esse é o lugar em que eu deveria estar. Será uma transformação muito grande na minha vida. Acho que levarei apenas coisas boas daqui”, afirma.
Depois do awire, uma das primeiras palavras que os visitantes aprenderam no idioma dos carajás foi tori. “Esse é o nome dado ao homem branco pelo povo inã”, explica o missionário Maicon Leandro, de Bataguassu (MS). Recém-formado no Ensino Médio, ele deseja cursar Jornalismo. Porém, antes disso, decidiu passar um ano como voluntário entre os nativos.
Ao chegarem na aldeia Juscelino Kubitschek, no dia 29 de janeiro, os participantes do Um Ano em Missão (também conhecido como OYiM, sigla em inglês para One Year in Mission) não imaginavam como seria sua nova residência. Feita de alvenaria, ela destoa do padrão local, apesar de alguns índios também viverem em residências que seguem o padrão urbano.
Construída ao lado da casa em que mora a família de um cacique adventista, a pequena moradia que abrigou outro grupo de missionários no ano passado precisou de reparos e ajustes para acomodar a nova equipe. Os quatro cômodos (dois quartos, um banheiro e um espaço para fazer as refeições e reuniões) tiveram que ser limpos e organizados. “Estava tudo bagunçado. Perdemos as contas de quantos sapos e aranhas encontramos dentro da casa”, lembra Ellen Sena, advogada em Brasília (DF).
NO CORAÇÃO DO BRASIL
Olhando para o mapa do Brasil é possível notar que o Tocantins está localizado geograficamente bem no centro do território brasileiro. Por isso, é conhecido como “o coração do Brasil”. Foi exatamente nessa região que a mensagem adventista começou a pulsar entre os nativos. Em 1920, a igreja iniciou seus primeiros esforços para alcançar populações nativas brasileiras no Araguaia, com a chegada do pastor Alvin Nathan Allen. Experiente em missões indígenas no Peru e na Bolívia, o norte-americano abriu as portas para missionários atuarem entre os carajás até os dias de hoje.
Outras regiões do estado também são receptivas à presença adventista. Os apinajés de Cacoal Grande, em Tocantinópolis, são um exemplo. A aldeia é considerada a maior comunidade adventista dessa etnia.
Ao todo, 25 voluntários do OYiM devem reforçar o Ministério Nativo no Estado. Eles estão distribuídos em três equipes espalhadas pelo território. Em Tocantínia, por exemplo, a meta é implantar a primeira igreja adventista do município, cuja maioria dos habitantes é da etnia xerente. Já em Tocantinópolis os missionários auxiliarão os apinajés.
MISSÃO ENTRE OS INÃS
A equipe que está no ponto mais distante é a da Ilha do Bananal, a quase mil quilômetros de Palmas. O grupo atende os carajás que vivem em comunidades costeiras do santuário ecológico. Em um dia típico de trabalho, os missionários caminham aproximadamente três quilômetros entre trilhas com paisagens exuberantes até chegar nas aldeias. Entre um destino e outro, é possível contemplar a diversidade biológica do local: botos, uirapurus, garças e araras. Há também onças pintadas e jacarés, porém raramente esses aparecem na presença de humanos.
Regiões mais remotas também são atendidas. Contudo, é difícil o acesso por terra a essas localidades, sendo preciso utilizar transportes aquáticos. O mais comum é a voadeira, barco motorizado que percorre com rapidez as águas do Araguaia. Com a pequena embarcação é possível chegar a lugares como a aldeia Fontoura, onde estão sendo desenvolvidas atividades com crianças e adolescentes por meio de um clube de desbravadores. Porém, essas visitas têm sido esporádicas, por causa da distância.
As principais ações estão concentradas na aldeia Santa Isabel, mais ao centro da ilha. Lá eles realizam feiras de saúde, praticam ações solidárias, ministram estudos bíblicos e participam das programações da igreja local. Além disso, o grupo oferece reforço escolar, aulas de inglês, espanhol e informática para as crianças na escola da comunidade.
“Eles conversaram com a gente e pediram ajuda nessa área porque não conseguem entender o português e fazer uma boa redação”, conta Bianka Fernandes, líder da equipe que está na ilha.
NOVO OLHAR SOBRE OS MISSIONÁRIOS
Talvez por conta da maneira como aconteceu a colonização do Brasil, a presença de missionários em aldeias foi alvo de preconceito. Mas o historiador Ubirajara Prestes Filho acredita que essa visão tem mudado. “Hoje há um reconhecimento maior de que quem deve dizer se aceita ou não a presença do missionário são os próprios índios. Eles são agentes de sua própria história, e devem ser respeitados”, explica.
Doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP), ele explica que antes os estudos antropológicos destacavam apenas os problemas da evangelização a partir da ideia da aculturação. “Porém, surgiram estudos que analisaram a forma como diferentes grupos indígenas receberam, incorporaram ou adaptaram a fé cristã. No que se refere aos missionários, a antropologia também tem analisado as mudanças que ocorreram nas próprias igrejas, a partir do contato com os índios. Como eu disse anteriormente, hoje a antropologia entende que os índios são agentes ativos de sua história. Claro que abusos praticados por algumas denominações são denunciados por estudiosos do assunto. Mas penso que hoje existe mais respeito”, argumenta.
A maneira como o líder do Ministério Nativo no Estado entende a evangelização nas aldeias reforça esse ponto de vista. “Os missionários precisam transmitir a mensagem na linguagem dos nativos de maneira que eles consigam compreendê-la dentro de seu contexto cultural. A finalidade não é mudar a cultura dos nativos, mas sim a visão que eles têm do evangelho”, sublinha Arôvel Leonay, que também é líder do OYiM no Tocantins.
LIDERANÇAS LOCAIS
Na cultura carajá é nítida a relação de cuidado entre os jovens e os mais velhos. Princípios como respeito e senso de comunidade são repassados pelas famílias de geração a geração. Graças a esses valores, muitos inãs atingem a maturidade cedo e ganham o reconhecimento dos anciãos. Alguns desses jovens tornam-se caciques. Familiarizados com a mensagem adventista, muitos desses líderes entendem a relevância dos voluntários na ilha.
Waxiaki Karajá, coordenadora pedagógica da Escola da aldeia Santa Isabel cursou o Ensino Médio no Instituto Adventista Brasil Central (IABC), em Abadiânia (GO), e concluiu a graduação em Pedagogia em 2016, no Unasp, campus Engenheiro Coelho (SP). Ela foi a primeira nativa carajá a concluir o Ensino Superior em uma instituição adventista. A pedido da mãe, logo depois da cerimônia de formatura, recusou o convite para atuar como professora em uma aldeia guarani, em São Paulo, e voltou para a Ilha do Bananal. Desde então, a professora passou a ajudar sua comunidade. Além de atuar na educação dos carajás, Waxiaki é a diretora do Coral dos Carajás da igreja de Santa Isabel e participa do projeto da Sociedade Bíblica do Brasil que visa a tradução das Escrituras para a língua dos nativos.
De acordo com Waxiaki, a formação do primeiro coral carajá representa a concretização de um sonho antigo, cultivado na época de escola. Quando participava de um coral no IABC,ela imaginava como seria ter um grupo musical em sua aldeia.
Atualmente, há 45 coristas de diferentes aldeias carajás envolvidos com a música. A maior parte dos hinos ainda está em português, mas aos poucos Waxiaki tem traduzido algumas das letras para o idioma nativo. As canções emocionam tanto inãs como toris. Mas os mais beneficiados são os integrantes do coral. “Antes os jovens só tinham o futebol como lazer. Agora eles possuem uma nova atividade por meio da qual desenvolvem a pontualidade e o respeito ao próximo. O comportamento de alguns deles mudou. Tinha gente que consumia bebida alcoólica e fumava. Mas muitos deixaram essa vida para estar aqui conosco”, comenta a professora.
Além de formar lideranças locais, é importante adaptar os conceitos bíblicos e a própria metodologia missional à cultura indígena. Há sete anos atendendo as igrejas da região da Ilha do Bananal, o pastor Miraldo Fag-tanh Oliveira reforça essa ideia. Nativo da etnia guarani, ele compreende a necessidade de moldar os métodos. “Temos vários desafios. Existe a questão da rotina do próprio povo. Por isso, procuramos adaptar todas as nossas ações, sociais ou evangelísticas, para que eles possam crescer e desenvolver-se mantendo sua cultura”, defende.
FALTAM VOLUNTÁRIOS
A chegada dos voluntários na Ilha do Bananal atende a algumas demandas dos habitantes na parte social, além de apoiar indígenas adventistas em comunidades como a igreja da aldeia Santa Isabel. Os resultados desse trabalho têm sido percebidos especialmente entre os jovens carajás. “O objetivo não é somente ensinar sobre a igreja, mas falar do amor de Deus.
Esse grupo carajá tem aprendido com os missionários do projeto Um Ano em Missão um estilo de vida diferente. Mesmo mantendo seu padrão cultural, eles veem que é possível ser um jovem carajá e ao mesmo tempo um jovem adventista”, pontua Fag-tanh.
Porém, são necessárias mais pessoas para dar suporte aos nativos. Conforme a mensagem adventista cresce entre os nativos, aumentam as demandas e, consequentemente, a necessidade de mais voluntários para atendê-las.
Prova disso é o que acontece na aldeia Fontoura.
Porém, são necessárias mais pessoas para dar suporte aos nativos. Conforme a mensagem adventista cresce entre os nativos, aumentam as demandas e, consequentemente, a necessidade de mais voluntários para atendê-las.
Prova disso é o que acontece na aldeia Fontoura.
Segundo o cacique e diretor da escola, José Hani Karajá, sua comunidade não conta com a presença de missionários. Matemático e ambientalista, o líder carajá realizou parte do Ensino Médio no Instituto Adventista Brasil Central (IABC). O envio de voluntários adventistas é uma reivindicação constante de Hani. Para ele, essas pessoas podem, inclusive, contribuir para resgatar valores culturais ofuscados pela presença da ocidentalização nas aldeias. “Precisamos urgentemente de um missionário em nossa aldeia, atuando com os jovens e auxiliando-nos no cotidiano”, reforça.
Publicado originalmente em: ramais.revistaadventista.com.br
Reportagem: Rafael Acosta
Fotos e vídeos: Rafael Acosta
Edição: Marcio Tonetti | Revista Adventista
Reportagem: Rafael Acosta
Fotos e vídeos: Rafael Acosta
Edição: Marcio Tonetti | Revista Adventista
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